Mais uma história que enviei como contribuição para o novo livro do Professor Fulgêncio,
cujo título é "Cursinho, Teatro do Ensino Feliz". Não sei por que pegam tanto no meu pé por causa da minha mãezinha, mas talvez essa história esclareça alguma coisa.
O LANCHINHO DA TARDE
Janeiro de 1992. O Universitário, na época, não tinha concorrência no mercado de preparação para o vestibular voltado ao público classe AB e representado por alunos de colégios tradicionais, tais como Anchieta, Farroupilha e Bom Conselho. A sede da Carlos Gomes rapidamente se tornou um forte referencial e, mais que uma unidade de ensino, promovia a interação entre os alunos das várias escolas da região
Aos 17 anos, eu participava pela primeira vez das famosas aulas “pré-exame”, exatamente um ano depois de assistir a tais aulas na condição de aluno. Os “pré-exames” são até hoje realizados na véspera de cada prova do vestibular da UFRGS e têm a dupla função de oferecer uma revisão relâmpago e uma oportunidade de descontração no mais delicado período da trajetória do vestibulando. Estimo que mais de 200 alunos amontoavam-se na sala de aula, cuja capacidade oficial, mesmo com o aproveitamento máximo do espaço disponível, oscilava entre 160 e 170 alunos. Havia alunos sentados no corredor central, ocupando as extremidades do estrado, em pé ao lado da porta, alunos em toda parte!
Meu nervosismo, evidentemente, era diretamente proporcional à grandiosidade do evento em que eu estava prestes a debutar. Subi no estrado, empunhei o microfone, procurei manter a voz firme ao dar aos alunos o meu melhor “boa tarde!” e caprichei na letra ao escrever “Polinômios” no quadro-negro. Mal sabia eu a sucessão de constrangimentos que, muito em breve, me teria como vítima.
Antes mesmo que eu pudesse sugerir a resolução de um único exercício, em meio ao primeiro momento de atenção coletiva que gentilmente os alunos me ofereciam, ouço algumas risadas. Ao voltar meu olhar à porta, notei a presença do Prof. Alfredo, que, além de diretor do curso, era meu colega na matemática e ainda hoje é um grande amigo e conselheiro. A visita seria natural, não estivesse ele empunhando uma máquina fotográfica e me dirigindo um sorrisinho maroto – uma de suas especialidades, aliás.
Ele imediatamente começou a circular pela sala, se deslocando com alguma dificuldade em meio à multidão de alunos e procurando os melhores ângulos para fazer a cobertura fotográfica do meu primeiro pré-exame. Os alunos, é claro, não continham as gargalhadas, especialmente ao perceberem o meu congelamento imediato ao ser surpreendido. Mal sabia eu que o pior estava por vir.
Cerca de 10 minutos depois, já recuperado do assalto inicial, eu apresentava o pré-exame normalmente quando voltei a ouvir as risadas do início. Lentamente, girei a cabeça na direção da porta e, mais uma vez, encontrei o sorrisinho inconfundível do Prof. Alfredo. Entretanto, dessa vez ele havia abandonado a câmera. Em suas mãos, um copo de leite e um prato com alguns biscoitos recheados.
“Tá na hora do teu lanchinho da tarde!”, anunciou, para deleite dos alunos presentes.
Enquanto eu, incrédulo, tentava inutilmente verbalizar algo em meio à paralisia que instantaneamente me dominou, veio o golpe de misericórdia.
“Vocês estão achando que fui eu quem trouxe esse lanchinho pra ele?”
“Estão enganados! Quem trouxe foi a mãezinha dele!” , disparou.
A referência à minha querida Dona Liris já teria sido suficiente para a minha completa desmoralização, mas a gargalhada que sucedeu o anúncio do professor Alfredo foi tão forte que tive a certeza de que o processo de fritura ainda não tinha atingido o seu clímax.
Só entendi verdadeiramente o maquiavelismo do plano quando percebi, surgida de trás do professor Alfredo, a presença de minha mãe em sala de aula, sorrindo alegremente e abanando para mim...
cujo título é "Cursinho, Teatro do Ensino Feliz". Não sei por que pegam tanto no meu pé por causa da minha mãezinha, mas talvez essa história esclareça alguma coisa.
O LANCHINHO DA TARDE
Janeiro de 1992. O Universitário, na época, não tinha concorrência no mercado de preparação para o vestibular voltado ao público classe AB e representado por alunos de colégios tradicionais, tais como Anchieta, Farroupilha e Bom Conselho. A sede da Carlos Gomes rapidamente se tornou um forte referencial e, mais que uma unidade de ensino, promovia a interação entre os alunos das várias escolas da região
Aos 17 anos, eu participava pela primeira vez das famosas aulas “pré-exame”, exatamente um ano depois de assistir a tais aulas na condição de aluno. Os “pré-exames” são até hoje realizados na véspera de cada prova do vestibular da UFRGS e têm a dupla função de oferecer uma revisão relâmpago e uma oportunidade de descontração no mais delicado período da trajetória do vestibulando. Estimo que mais de 200 alunos amontoavam-se na sala de aula, cuja capacidade oficial, mesmo com o aproveitamento máximo do espaço disponível, oscilava entre 160 e 170 alunos. Havia alunos sentados no corredor central, ocupando as extremidades do estrado, em pé ao lado da porta, alunos em toda parte!
Meu nervosismo, evidentemente, era diretamente proporcional à grandiosidade do evento em que eu estava prestes a debutar. Subi no estrado, empunhei o microfone, procurei manter a voz firme ao dar aos alunos o meu melhor “boa tarde!” e caprichei na letra ao escrever “Polinômios” no quadro-negro. Mal sabia eu a sucessão de constrangimentos que, muito em breve, me teria como vítima.
Antes mesmo que eu pudesse sugerir a resolução de um único exercício, em meio ao primeiro momento de atenção coletiva que gentilmente os alunos me ofereciam, ouço algumas risadas. Ao voltar meu olhar à porta, notei a presença do Prof. Alfredo, que, além de diretor do curso, era meu colega na matemática e ainda hoje é um grande amigo e conselheiro. A visita seria natural, não estivesse ele empunhando uma máquina fotográfica e me dirigindo um sorrisinho maroto – uma de suas especialidades, aliás.
Ele imediatamente começou a circular pela sala, se deslocando com alguma dificuldade em meio à multidão de alunos e procurando os melhores ângulos para fazer a cobertura fotográfica do meu primeiro pré-exame. Os alunos, é claro, não continham as gargalhadas, especialmente ao perceberem o meu congelamento imediato ao ser surpreendido. Mal sabia eu que o pior estava por vir.
Cerca de 10 minutos depois, já recuperado do assalto inicial, eu apresentava o pré-exame normalmente quando voltei a ouvir as risadas do início. Lentamente, girei a cabeça na direção da porta e, mais uma vez, encontrei o sorrisinho inconfundível do Prof. Alfredo. Entretanto, dessa vez ele havia abandonado a câmera. Em suas mãos, um copo de leite e um prato com alguns biscoitos recheados.
“Tá na hora do teu lanchinho da tarde!”, anunciou, para deleite dos alunos presentes.
Enquanto eu, incrédulo, tentava inutilmente verbalizar algo em meio à paralisia que instantaneamente me dominou, veio o golpe de misericórdia.
“Vocês estão achando que fui eu quem trouxe esse lanchinho pra ele?”
“Estão enganados! Quem trouxe foi a mãezinha dele!” , disparou.
A referência à minha querida Dona Liris já teria sido suficiente para a minha completa desmoralização, mas a gargalhada que sucedeu o anúncio do professor Alfredo foi tão forte que tive a certeza de que o processo de fritura ainda não tinha atingido o seu clímax.
Só entendi verdadeiramente o maquiavelismo do plano quando percebi, surgida de trás do professor Alfredo, a presença de minha mãe em sala de aula, sorrindo alegremente e abanando para mim...

