Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

O Lanchinho da Tarde

Mais uma história que enviei como contribuição para o novo livro do Professor Fulgêncio,
cujo título é "Cursinho, Teatro do Ensino Feliz". Não sei por que pegam tanto no meu pé por causa da minha mãezinha, mas talvez essa história esclareça alguma coisa.

O LANCHINHO DA TARDE

Janeiro de 1992. O Universitário, na época, não tinha concorrência no mercado de preparação para o vestibular voltado ao público classe AB e representado por alunos de colégios tradicionais, tais como Anchieta, Farroupilha e Bom Conselho. A sede da Carlos Gomes rapidamente se tornou um forte referencial e, mais que uma unidade de ensino, promovia a interação entre os alunos das várias escolas da região

Aos 17 anos, eu participava pela primeira vez das famosas aulas “pré-exame”, exatamente um ano depois de assistir a tais aulas na condição de aluno. Os “pré-exames” são até hoje realizados na véspera de cada prova do vestibular da UFRGS e têm a dupla função de oferecer uma revisão relâmpago e uma oportunidade de descontração no mais delicado período da trajetória do vestibulando. Estimo que mais de 200 alunos amontoavam-se na sala de aula, cuja capacidade oficial, mesmo com o aproveitamento máximo do espaço disponível, oscilava entre 160 e 170 alunos. Havia alunos sentados no corredor central, ocupando as extremidades do estrado, em pé ao lado da porta, alunos em toda parte!

Meu nervosismo, evidentemente, era diretamente proporcional à grandiosidade do evento em que eu estava prestes a debutar. Subi no estrado, empunhei o microfone, procurei manter a voz firme ao dar aos alunos o meu melhor “boa tarde!” e caprichei na letra ao escrever “Polinômios” no quadro-negro. Mal sabia eu a sucessão de constrangimentos que, muito em breve, me teria como vítima.

Antes mesmo que eu pudesse sugerir a resolução de um único exercício, em meio ao primeiro momento de atenção coletiva que gentilmente os alunos me ofereciam, ouço algumas risadas. Ao voltar meu olhar à porta, notei a presença do Prof. Alfredo, que, além de diretor do curso, era meu colega na matemática e ainda hoje é um grande amigo e conselheiro. A visita seria natural, não estivesse ele empunhando uma máquina fotográfica e me dirigindo um sorrisinho maroto – uma de suas especialidades, aliás.

Ele imediatamente começou a circular pela sala, se deslocando com alguma dificuldade em meio à multidão de alunos e procurando os melhores ângulos para fazer a cobertura fotográfica do meu primeiro pré-exame. Os alunos, é claro, não continham as gargalhadas, especialmente ao perceberem o meu congelamento imediato ao ser surpreendido. Mal sabia eu que o pior estava por vir.

Cerca de 10 minutos depois, já recuperado do assalto inicial, eu apresentava o pré-exame normalmente quando voltei a ouvir as risadas do início. Lentamente, girei a cabeça na direção da porta e, mais uma vez, encontrei o sorrisinho inconfundível do Prof. Alfredo. Entretanto, dessa vez ele havia abandonado a câmera. Em suas mãos, um copo de leite e um prato com alguns biscoitos recheados.

“Tá na hora do teu lanchinho da tarde!”, anunciou, para deleite dos alunos presentes.

Enquanto eu, incrédulo, tentava inutilmente verbalizar algo em meio à paralisia que instantaneamente me dominou, veio o golpe de misericórdia.

“Vocês estão achando que fui eu quem trouxe esse lanchinho pra ele?”

“Estão enganados! Quem trouxe foi a mãezinha dele!” , disparou.

A referência à minha querida Dona Liris já teria sido suficiente para a minha completa desmoralização, mas a gargalhada que sucedeu o anúncio do professor Alfredo foi tão forte que tive a certeza de que o processo de fritura ainda não tinha atingido o seu clímax.

Só entendi verdadeiramente o maquiavelismo do plano quando percebi, surgida de trás do professor Alfredo, a presença de minha mãe em sala de aula, sorrindo alegremente e abanando para mim...

Domingo, 21 de Setembro de 2008

A Valsa

No domingo, 31 de agosto, resolvi presentear minha mãezinha com um almoço no Restaurante Colina Verde, em Nova Petrópolis, que de tão bom que é continua no alto da serra para que pessoas de paladar refinado se dirijam a ele, e não o contrário. Sentamos à mesa eu, dona Liris e seu Adeodato em um belo dia de sol que se deixava apreciar pela moldura da janela que adornava nossa mesa. Desfrutamos de um almoço fantástico, que se traduziu em inúmeros elogios por parte da aniversariante e, como não podia deixar de ser, em comentários cáusticos do pai acerca da quantidade absurda de comida e da enorme distância que percorremos para almoçar. É claro que, como manda a tradição, tais comentários foram feitos com o objetivo específico de me importunar, embora tenham apenas desencadeado uma série de discretos gestos obscenos e alguns xingamentos recíprocos.

Enquanto aguardávamos a conta, ainda vitimados pela embriaguez que sempre sucede as orgias gastronômicas a que nos submetemos mesmo sabendo do mal que nos fazem, fomos surpreendidos por uma seleção musical magnífica que teve seu ápice com a execução de uma versão instrumental da música-tema do filme "Don Juan de Marco".

"Essa é a música mais linda do mundo..." - O comentário do seu Adeodato deixava até transparecer uma certa melancolia, o que não deixava de ter uma certa dose de ineditismo.

Quitada a despesa e, portanto, consumada a homenagem à mãezinha, levantáva-mos todos juntos quando a trilha sonora incidental mudou novamente de rumo. Passamos, então, a ouvir uma bela valsa orquestrada. Imediatamente, repousei o braço direito sobre os ombros do pai e, romanticamente, propus: "E aí, véio? Vamos dançar essa valsa?"

Seu Adeodato me olhou, com aquela interrogativa sobrancelha arqueada de sempre, e não teve dúvidas.

"É pra já!"

Em um instante, estávamos rodopiando, pai e filho, em meio às mesas do restaurante. Imediatamente, os demais freqüentadores do restaurante passaram a chamar a atenção uns dos outros, os que assistiam à cena frontalmente alertando os que estavam de costas para que não perdessem a oportunidade de testemunhar algo tão divertido quanto inusitado. E paralelamente a isso, é claro, dona Liris disparava rumo à saída sem olhar para trás, numa evidente tentativa de aparentar não ter qualquer vínculo com aquele par de loucos.

Acho que só paramos de rir já de volta a Porto Alegre. Mas continuo até agora tentando entender o que há de tão chocante em um filho convidar o pai a dançar uma valsa -- e o pai aceitar...

Domingo, 14 de Setembro de 2008

O Professor-Apagador

Essa história vai pro novo livro do Professor Fulgêncio, cujo título é "Cursinho, Teatro do Ensino Feliz". Como ela faz referência a meu grande amigo e atual vizinho de sala, o famoso Professor Alex Mossmann, resolvi compartilhar com os amigos. Divirtam-se!

O PROFESSOR-APAGADOR

Pergunte a um professor se ele tem uma turma do coração, e ele certamente saberá o que responder. Durante o segundo semestre de 1993, tive a oportunidade de trabalhar com minha turma inesquecível, o Intensivo Tarde do sexto andar da sede Dr. Flores do Universitário. Na época, a sede tinha três turmas de intensivo no turno da tarde e que somavam mais de 500 alunos. Dar aula em todas elas era uma atividade amplamente prazerosa, mas o encontro com o eterno IT6, por razões obscuras que um professor nem sempre consegue elencar, era um momento que eu antecipava toda semana, talvez por saber que ficaria feliz à primeira visão daqueles alunos fantásticos – e tinha absoluta convicção de que a recíproca era verdadeira. Mas, enfim, amor à primeira vista nem sempre é algo que tem explicação...

No mesmo horário em que eu tinha o prazer de dar aula no IT6, o Prof. Alex Mossmann, de Física, que até hoje tenho a honra de incluir em minha relação de amigos pessoais, atendia o Intensivo Tarde do quinto andar. Como estávamos na posição geograficamente privilegiada do andar de cima, resolvemos em comum acordo, eu e os alunos do IT6, que todas as minhas aulas começariam por uma entusiasmada saudação ao nosso maor ídolo, o professor Alex. Tal saudação se dava na forma de um forte sapateado, cuja intensidade chegou ao extremo, segundo testemunhas do IT5, de fazer com que algumas lâmpadas fluorescentes caíssem sobre os alunos, o que, felizmente, não causou nenhum acidente grave. Eventualmente, o gabarito de certas questões que eu resolvia no quadro era acompanhado da “celebração dos inteligentes”, o que credenciava quem havia acertado a questão a repetir o sapateado em questão. É claro que esse processo se repetia algumas vezes por aula, o que fatalmente levou o professor Alex e os alunos da IT5 às raias da loucura.

Na última aula do semestre, já em janeiro de 1994, eu passava orientações gerais aos alunos quando notei que a porta da sala estava entreaberta. Ao voltar minha atenção a ela, notei a presença de um aluno símbolo do IT5 que atendia pela alcunha de “Eddie Murphy”. Como o apelido evidencia, Eddie era um negro muito simpático e querido por todos, o que, em associação à uma potência vocal impressionante, acabou o elevando à condição de líder natural da turma. Eu e os demais alunos presentes estranhamos momentaneamente a inesperada visita, o que me fez prudentemente iniciar um diálogo.

“E aí Eddie, tudo tranqüilo?”

“Comigo tudo bem, Gustavinho, e contigo?” – sua voz grave de radialista certamente o credenciaria a dispensar o microfone, caso decidisse, um dia, vir a ser professor.

“Tudo beleza! Posso te ajudar?”

“Tá tudo beleza mesmo?” – e, nesse momento, senti que algo sinistro estava prestes a acontecer.

“Tranqüilaço, Eddie! Mas por que a curiosidade?”

“É que não vai ficar assim por muito tempo...” – num movimento rápido, Eddie abriu completamente a porta de correr, e um fluxo contínuo e imediato de alunos me fez entender rapidamente que a vingança do professor Alex estava em curso. Estávamos sendo invadidos pelo IT5!

Não sei precisar quanto tempo levou para os invasores me alcançarem, mas lembro claramente que, em frações de segundo, fui erguido pelos alunos do IT5, girado, ainda em suspensão, de ponta-cabeça e arremessado em direção a algumas cadeiras vazias do canto da sala, como se fora um saco de batatas. Os alunos rebeldes, em uma espécie de catarse coletiva, dominaram o estrado e entoavam cânticos tribais de guerra. Os alunos do IT6, incrédulos, pareciam paralisados pela surpresa da invasão. Nesse meio tempo, o professor Alex entrou na sala aplaudidíssimo por seus discípulos guerrilheiros, e seu sorriso evidenciava que sua sede de vingança estava sendo saciada.

Ainda espatifado em meio a algumas cadeiras, olhei para o fundo da sala e gritei a plenos pulmões “mas vocês vão ficar aí, só olhando, sem fazer nada?”

Foi o suficiente.

A tropa de choque do fundão levantou em um movimento único e começou a se movimentar na direção do professor Alex. Por um momento, temi pelo pior, mas em seguida lembrei que era o IT6, o meu IT6 do coração, e que eles não me desapontariam.

Cerca de 10 alunos, certamente os mais fortes do IT6, cercaram o professor Alex, que, talvez extasiado ao testemunhar o cumprimento da missão, talvez em função da dificuldade de movimentação em uma sala que naquele momento acomodava duas turmas, não teve tempo de se refugiar. Os alunos, então, ergueram o professor e, em movimentos circulares, apagaram o quadro inteiro usando as costas do Alex como apagador.

E dizem por aí que, até hoje, não há registro mundial, na história do magistério, de outro professor que tenha sido usado como apagador pelos alunos...

Sábado, 26 de Julho de 2008

Comunicação é tudo

Estávamos hoje, eu e a Camila, na filial da Fernandes Vieira do delicioso Pastel com Borda, estabelecimento de alta gastronomia de propriedade de minha amiga Aline, a pasteleira dos cabelos de corte caótico e cor indescritível e que é uma simpatia só.

Lá pelas tantas, lancei uma nova proposta instantânea de assunto.

"Tu soube que o Chaves encontrou o Rei?"

Ela lança a mim um olhar de surpresa, bem mais surpresa do que eu jamais imaginei que alguém pudesse ter diante de uma cápsula de informação tão singela e despretensiosa. Resolvi prosseguir, com a melhor e mais esclarecedora das intenções.

"É, o Rei aquele que tinha mandado ele calar a boca!"

Novo olhar de surpresa, dessa vez seguido por uma sonora gargalhada.

"É que eu pensei, por um momento, que tu tava falando do Chaves do seriado da TV e do Rei Roberto Carlos!!! Aí fiquei pensando como é que os dois se conheciam!!!"

E eu, obviamente, falando do Hugo Chávez e do Rei Juan Carlos da Espanha...

*** Este diálogo teve o patrocínio de MASTERCARD ***

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

O Anti-Blog

Acho que criei, meio sem querer, o anti-blog.
Sei que não é o único, mas certamente seu grau de inatividade o credencia a uma posição de destaque nessa categoria...

O pior (ou melhor, talvez) é que não é nem por falta de assunto, mas sim, e desde já com o perdão do lamentável lugar comum, pela falta de tempo -- leia-se falta de disciplina, de compromisso, de regularidade e de um monte de outras coisas mais.

Enfim, durante os últimos dias andei pensando bastante nesse projeto e resolvi que estava na hora de fazer com que ele tentasse, ao menos, ultrapassar a fase embrionária.

Quem viver, verá. Ou não. hehehe :)

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

E o pano pra manga continua...

Às vezes, ser completamente neurótico em relação ao próprio trabalho tem lá suas compensações.

Como muitos de meus ex-alunos de grupo sabem, eu tenho o hábito de acessar, imediatamente após a publicação pela UFRGS, os boletins de desempenho de meus pupilos. Na última segunda-feira não foi diferente. Como manda a tradição, consegui acessar mais de 90% dos boletins que tentei bisbilhotar, com o simples e nobre propósito de fazer meu levantamento estatístico de desempenho.

Só não prometo sigilo em Matemática, conforme estampado na primeira página do meu site...

"Ora", dirão os otimistas de plantão, "90% é um belo índice", e completarão, com uma certa dose de razão, "você deve estar muito satisfeito". De fato. Entretanto, curiosamente minha motivação principal para o compartilhamento de idéias dessa madrugada reside nos menos de 10% a que, por pura falta de velocidade, não tive acesso.

Curiosamente, tenho o mediúnico hábito de adivinhar os boletins que não terei a chance de visualizar. Eles pertencem, quase que invariavelmente, a ex-alunos que não obtiveram aprovação e que se enquadram em uma de duas categorias: os narcisistas constrangidos e os mentirosos.

Como tais categorias são auto-explicativas, e todos nós, se pensarmos brevemente, concluiremos que já tivemos alguma forma de exposição a indivíduos dessas classes, o detalhamento de suas características é, de certa forma, desnecessário.

A curiosidade específica desse concurso vestibular é o surgimento de uma terceira qualidade de bloqueadores de boletins: a divisão dos aprovados por cotas sociais.

Ando tendo a forte impressão de que alguns aprovados cotistas parecem estar ocultando deliberadamente tal condição. Talvez isso ocorra em função da reação que a adoção do sistema de cotas surtiu na conservadora sociedade gaúcha, ou por tais aprovados acreditarem que pessoas de índole duvidosa possam vir a usar o fato de que muitas dessas aprovações não teriam acontecido se a nova sistemática de ingresso não tivesse sido implementada.

O fato é que, mais uma vez, nosso questionamento com relação à justiça do sistema é imediatamente despertado .

Voltando aos mais de 90% a cujos desempenhos tive acesso e, mais especificamente, ao subconjunto de aprovados, quero agora reforçar a valorização inicial de meus componentes neuróticos. Graças a eles, eu sei quem passou e por que passou. E, confesso a vocês, fica bem mais difícil questionar se o sistema é justo ou não quando as vagas viram rostos e histórias de vida.

Já há, hoje e de forma inédita, recursos estatísticos para promover discussões acerca do modelo adotado, incluindo aí as polêmicas cotas raciais. Já é possível quantificar as aprovações por segmento e, assim, verificar se o dimensionamento das categorias foi razoável.

O que não se pode dimensionar é o tamanho da alegria de estudantes que, por circunstâncias que a vida lhas impôs, jamais imaginaram que seriam capazes de alcançar, por exemplo, uma vaga na Escola de Medicina da UFRGS.

Portanto, reforço aqui meus sinceros parabéns a todos os aprovados nos vestibulares da vida, e faço votos de que sejam muito felizes em suas carreiras profissionais, independente de suas aprovações terem sido obtidas com o auxílio de medidas não-convencionais.

Afinal, as oportunidades em que o sistema beneficia a cada um de nós são raras, e é importante saber identificá-las e aproveitá-las.

Um abraço e, como sempre, está aberto o espaço para que os questionamentos continuem...

Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Com 10 Anos de Atraso...

Eis que surge, com 10 anos de atraso, my very personal blog!

Dirão meus críticos que isso não passa de mais uma iniciativa narcisista da porção Guzy de minha esquizofrenia -- o que não deixa de configurar um tópico interessante para um post futuro --, mas eu prefiro humildemente afirmar que a inauguração desse blog representa apenas mais uma oportunidade de troca de idéias com meus alunos, ex-alunos, amigos e ex-amigos.

Ainda mais em tempos de reinvenções pessoais, busca de independência profissional, et cetera.

A questão essencial, obviamente, continua sendo "alguém vai ler?".

Que bom que não é difícil traçar um paralelo.

Apesar de nem todos os meus alunos serem bem sucedidos nas batalhas que enfrentam, ainda assim encontro conforto na indescritível gratidão de alguns dos aprovados, quer no vestibular, quer nos cálculos da vida.

Portanto, se alguns, mesmo que alguns poucos, visitantes se interessarem por essas linhas e se manifestarem por intermédio do espaço de comentários, a missão já estará cumprida.

Afinal, é disso que um professor fundamentalmente se alimenta, das pequenas recompensas e reconhecimentos que a vida lhe propõe.

Mas isso, de novo, é assunto pra outro post...

Welcome, enjoy and make yourself at home.